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No habitat da Cattleya violacea

20 outubro 2009 7 comentários

rio_xavantinho_habitat_c_violaceaNuma sexta-feira saímos da casa de Iraene e fomos para a fazenda do casal Abi e Geovania, meus amigos de Luciara, Estado de Mato Grosso.  Montamos acampamento com nossas barracas de camping no terreiro junto da casa dos empregados. Na tarde do mesmo dia passeamos pelas margens do rio Xavantinho, próximo da sede, onde vegetam naturalmente as belas Cattleya violacea. Aproveitamos para pescar muitos tucunarés…Geovania foi a campeã da pescaria e no jantar, preparou delicioso ensopado com tempero baiano e leite de coco.geovania_pescadora_campea_tucunares

volta_da_pescaria_rio_xavantinho
 No entardecer desse dia, Iraene e eu decidimos ir à pé num local cheio de Vanilla e Notylia um pouco distante da sede da fazenda.
A empolgação ao deparar com o habitat de tais orquídeas acaba iludindo-nos em relação ao tempo, e quando vimos já anoitecia. Numa passagem próxima do rio, na areia fofa havia pegadas fundas e concluímos que fossem dos cachorros da fazenda.   Na volta, com a lua cheia clareando a estrada, conversávamos e apreensivo pensava nas pegadas que vimos, e volta e meia vinha aquele estranho frio na “espinha”. Após o jantar e depois de jogar conversa fora sentados no terreiro e à luz da lua cheia, contamos pro pessoal reunido sobre as pegadas que vimos, e um dos peões da fazenda disse que na noite anterior tinha visto duas onças atacando uma capivara próximo daquele local onde estivemos. Ainda agora não sei se ele disse aquilo para impressionar e amedrontar-nos.

acampamento_fazenda_abi_e_geovaniaO que sei é  fomos dormir em seguida e eu preocupado com tais comentários. Ainda bem que na fazenda tem uma meia dúzia de cachorros grandes que dormiram próximos de nossas barracas. Ainda na madrugada, por volta de 5 da manhã um bando de “chico preto” iniciou sua cantoria, seguida do canto dos ‘xexéus”. Tomamos nosso café e sem perda de tempo arrumamos nossas coisas, desmontamos o acampamento e fomos ao nosso destino final no rio Tapirapé, uns 60 km distante da fazenda do Abi e Geovania, pros lados de Porto Alegre do Norte.

Detalhes do habitat

rio_xavantinho_habitat_c_violacea As características marcantes   tanto na região do rio Xavantinho, quanto no rio Tapirapé são as duas estações climáticas bem definidas, de março a novembro secas e de novembro a fevereiro chuvosa, com alto índice pluviométrico, com inundações das várzeas dos rios, formando regiões pantanosas nalguns trechos, inclusive e principalmente onde vegetam as Cattleya violacea. A temperatura diurna ambiente na época seca varia de 28 a 33ºC com umidade relativa do ar entre 65 a 70%. À noite  a temperatura cai entre 20 e 25ºC e a umidade relativa do ar fica em torno de 80%. Isso é facilmente explicado pela proximidade do rio e muitos lagos existentes na região. A mata, com árvores altas, cipós e arbustos ribeirinhos permitem uma boa ventilação, luz natural filtrada pela copa das árvores incidindo nas plantas da C. violacea permite uma  graduação de 60 a 70% de sombreamento. cattleya_violacea Foi interessante notar que a Cattleya violacea vegeta na forma epífita em árvores altas    numa média de 5 a 6 metros de altura, mas na região do rio Xavantinho, ela é encontrada vegetando também em árvores arbustivas muitas vezes a apenas 1,5m de altura – e sempre numa faixa margeando o rio e lagos não maior que 10 metros a contar da margem adentrando a mata ciliar. Além dessa metragem dificilmente encontra-se qualquer orquídea vegetando. Convivendo no mesmo local acham-se Notylia, Oncidium ceboletta, Campylocentrum,  Epidendrum nocturnum,  Lockhartia lunifera, Encyclia linearifolioides e Aspasia variegata.

rio_tapirape_habitat_c_violaceaSe encontramos na região do Xavantinho, muita Vanilla, na região do Tapirapé onde estivemos, não vimos qualquer exemplar dessa orquídea. Deparamos com muitas Cattleya violacea apresentando botões florais por abrir. Conversando com o “Canhoto” e “Fiinha”, caseiros da fazenda onde estivemos no rio Tapirapé, fui informado  que à noite a temperatura cai e esfria bem na região e na manhã o capim nativo apresenta-se com muita umidade.

mata_ciliar_rio_tapirapeUm passeio agradável (tirando os carrapatos que fizeram festa em muitos de nós);  ampliamos nossos conhecimentos sobre a realidade do habitat da bela orquídea Cattleya violacea. Para melhor confirmar sobre temperatura e umidade relativa do ar nas regiões visitadas, levei um termômetro importado “Springfield” para maior certeza desses detalhes, objetivando um melhor cultivo doméstico de nossas plantas. Aproveito para agradecer aqui a inestimável colaboração de minha amiga Iraene e seu marido Beomon,  que como sempre acolhem-me com carinho quando visito a bela cidade de Luciara; ao casal amigo Abi e Geovania, os quais possibilitaram-me a visita no habitat da Cattleya violacea na área de sua fazenda, dispondo da camioneta para levar-nos onde estivemos, e também o amigo Almiron, orquidófilo iniciante que foi comigo de Cuiabá até Luciara, distante 1.240km —  ajudando-me na direção do carro.

Detalhe da pescaria que fizemos no Xavantinho da qual Geovania foi campeã… em último lugar do podium ficou eu, José Luiz e Beomon, sem conseguirmos fisgar um tucunaré sequer – seguido de Anaide (irmã de Iraene, que ficou em segundo lugar) e Almiron – que conseguiram o consolo de fisgar um único peixe.  A desculpa dos perdedores foi o horário quente da tarde!

 Uma advertência final àqueles que eventualmente forem visitar essa região do médio Araguaia. Jamais optem pelo trajeto ligando a localidade denominada “Alô Brasil” passando por     Bom Jesus, Serra Nova Dourada  até Alto Boa Vista. Usem a estrada comum, que vai até o vilarejo chamado “Posto da Mata” rumo a São Félix do Araguaia, passando pelo Alto Boa Vista. Na volta, curioso por conhecer esse trecho acima, decidi aventurar-me nele. Se arrependimento matasse esse artigo não teria sido publicado (rs!). Não confie nas gentis informações dos moradores de Alô Brasil ou Alto Boa Vista. A estrada de chão batido, apesar de patrolada e cascalhada, é cheia das chamadas “costelas de vaca”, provocando sacolejos e trepidações nos veículos que irrita qualquer um. Entre Serra Nova Dourada e   Bom Jesus, região de serras,   muitos  aclives são tão íngremes que foi necessário engatar a primeira marcha. Enfim, é um desgaste emocional e também da estrutura do veículo desnecessários. Usando o trecho passando pelo Posto da Mata, evitam-se essas dores de cabeça. 

Rio_Araguaia_em_Luciara A viagem aconteceu em princípios de outubro, com estrada seca…pior seria na época chuvosa, onde os atoleiros são comuns. O governo federal está asfaltando o trecho entre Ribeirão Cascalheira até o Posto da Mata. Torço para que terminem. Conta-se que já foram designadas em governos anteriores verbas para esse asfalto – e que nunca aconteceu, e o dinheiro – sumiu… Dessa localidade até Luciara restarão cerca de 250 km por terra. Menos mal. A região é linda no rio Araguaia, com botos, gaivotas e pássaros aquáticos da região amazônica, além de bandos de papagaios e araras que volta e meia cruzam o ar- sem contar a piscosidade dos rios já mencionados.

miron_karaja_tucunares_rio_xavantinhoO povo de toda a região é muito educado e hospitaleiro e bem que merecia asfalto até São Felix, pois o turismo ecológico da região é um grande diferencial positivo, mas pouco usado pela deficiência e má qualidade das estradas e pontes de madeira. Isso afugenta um grande número de visitantes que poderiam trazer mais recursos para o turismo da região. Por enquanto os maiores visitantes são caravanas esporádicas de pescadores profissionais de São Paulo, Goiás e Minas Gerais, que pouco contribuem  com o comércio local, pois já levam tudo que consumirão de bebidas ou alimentos em suas bagagens – e na troca, voltam com centenas  de quilos de peixes do Araguaia, Tapirapé ou Xavantinho, com caixas frigoríficas abarrotadas, sem nada pagar no município visitado. Sou contra esse turismo oportunista e predador, que em nada contribui com as comunidades carentes da região.

Créditos:

Autor e fotos:  José Luiz da Silva Vieira.

7 Comentários »

  • Sandra Soares dito:

    José Luis, é para ficar sem fôlego ver estas fotos e ler a matéria!!!Você tem razão quando diz que, muitos dos que vão já vão com tudo comprado, e se esquecem que podem estar realmente ajudando a cidade que estão visitando,já que em Luciara o comércio tem tudo. Mas essa dos carrapatos é muito boa rsrsr ainda se fosem só mosquitos,mas os dois, ficou no sal. Parabéns pela matéria e pelas fotos,e ainda por amigos muitos especiais, como Iraene sempre disposta, Geovânia parabéns pela pescaria e pelo prato delicioso que preparou e nem contou para você que era uma moqueca baiana!!!! Um abraço, Sandra.

  • Jônatas Klava dito:

    Fala José Luiz,

    É, pelo visto as aventuras também fazem parte de sua rotina hhahaha. Temos sempre que ter histórias para contar!

    Abraços!
    R.: Estimado Jonatas, sempre que posso faço algumas viagens, principalmente para Luciara, onde já trabalhei no passado, morei por duas vezes. Aproveite para ver a materia que fiz sobre a Cattleya araguaiensis, clicando aqui! E conheça mais um pouco de Luciara!

  • katia dito:

    Que bela viagem e que grande aventura!
    Mais uma vez me deslumbro com as imagens do rio, que lugar lindo, um verdadeiro paraíso!
    A simples possibilidade de ser “visitado” por uma onça realmente não é das melhores, carrapatos então nem se fala. Mas para ver toda essa beleza, qualquer risco vale a pena, não é?
    Salve a Geovania,salvou o almoço, não é? (rs!). Hummm, que delícia o peixe assado, fiquei com água na boca!

    Um grande abraço a todos, Katia

  • iraene dito:

    Oi Zé ficou muito boa a matéria; gostei de de ser a vice campeã da pescaria junto com a jogada de mestre! Olha a Geovania está aqui comigo e disse que vc tem que vir mais vezes na época seca e trazer o macaco da selva para subir rsrsrsrs. Bjs
    R.: Abraço carinhoso a todos vocês! Lembrando, sendo seu marido, o Beomon pescador profissional…rs! não fisgou nenhum tucunaré! Tambem e Geovania parece que tinha “benzido” o rio naquele dia!

  • Dilson Paiva dito:

    Prezado José Luiz,

    Surpreendente a narrativa, além de bem conduzida nos deu uma noção da viagem e os acontecimentos com detalhes. Semelhante a um diário de uma proveitosa expedição. Parabéns meu caro, como sempre presenteando aos seus leitores e seguidores com imagens e experiências extraordinárias, incorporando um relacionamento afetivo muito envolvente entre os aventureiros.

    Um sincero abraço…

  • Liliann dito:

    Oi Luiz, sou iniciante no cultivo de orquideas, e fico encantada com essas reportagens sobre habitats, parabéns, linda a narração, sou amiga virtual da Iraene, linda ela, abraços!!!
    R.: Valeu Lilian! Agradeço sua visita! Seja sempre bem-vinda! A Iraene é minha amiga de longa data, afinal eu morei em Luciara, quando lá nos conhecemos. Abraços.

  • Idiciane dito:

    Olá José Luiz,

    Muito boa sua aventura. Eu tbm adoro essas aventuras. Moro na Fazenda em Lucas do Rio Verde – MT, e de vez em quando eu, meu esposo e minha mãe vamos para o mato e passamos a tarde vendo as “belezinhas”, e muito desestressante. Quanto aos animais parasitas – carrapatos- é normal, hehehe. Adorei sua matéria, se um dia quiser vir pra essas bandas, será bem vindo.

    Abraço
    Idiciane
    R.: Obrigado pela visita e convite Idiciane! Quem sabe um dia apareço em Lucas do Rio Verde para uma visita…ainda não conheço sua cidade! Abraços!

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