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Orquídeas do Pico da Ibituruna

19 janeiro 2012 Um comentário

por Reginaldo Vasconcelos

O Pico da Ibituruna é o principal ponto turístico de Governador Valadares, no Estado de Minas Gerais, é considerado um dos locais com as melhores condições de vôo livre do planeta, suas térmicas são ideais para este esporte e atrai pessoas de todas as partes do mundo.
Entretanto, o Pico da Ibituruna tem muitos outros atrativos e suas belezas naturais despertam o fascínio de todos que visitam o local. Existem cachoeiras em regiões remanescentes da Mata Atlântica, ambientes rochosos e uma rica flora e fauna.
Porém tais belezas estão ameaçadas pela falta de cuidado de seus visitantes que muitas vezes jogam lixo nas margens das estradas que dão acesso ao pico.
Ainda mais preocupantes, são as queimadas que constantemente destroem grande parte da vegetação, empobrecendo a biodiversidade.

Outrora todo o pico era coberto pela pujante Mata Atlântica. A mata somada a localização natural da montanha e a altitude, favoreceram ao desenvolvimento de um rico ecossistema repleto de espécies, mas a ação destrutiva do homem fez com que muito fosse perdido e toda paisagem fosse alterada. Assim, grande parte da biodiversidade antes existente foi eliminada, restando apenas poucas ilhas dispersas e isoladas de matas. Dentre as espécies que mais sofrem com este desequilíbrio, as orquídeas são as maiores prejudicadas pois exigem um ambiente estável e conservado para sua sobrevivência e reprodução.

Algumas espécies de orquídeas podem ser encontradas no Pico da Ibituruna mesmo após muitas décadas de degradação. Existem algumas espécies que sobrevivem nesse ambiente, o que nos causa muito alegria e esperança. Foram feitas várias observações em diferentes partes do pico e constatamos a presença de 37 espécies de orquídeas, porém acredita-se que esse número era muito maior quando havia uma maior cobertura de vegetação original, mas ainda poderá aumentar quando novas áreas forem estudadas.

A maioria das espécies vegeta dentro dos fragmentos da Mata Atlântica, como é o caso da Miltonia flavescens, Epidendrum filicaule, Anathallis sclerophylla, Brasilidium praetextum, Brasiliorchis picta e algumas espécies de Octomeria. Essas matas de altitude têm grande variedade de plantas, não apenas de orquídeas mas também de bromélias, antúrios, samambaias e begônias. Isso porque a umidade é elevada devido aos ventos úmidos que vêm do oceano e condensam nas encostas  da serra, a altitude favorece a formação de nuvens carregadas de umidade que banham o dossel da mata (copas das árvores) criando um local favorável para as plantas epífitas. No solo das matas podem ser encontradas orquídeas terrestres que se desenvolvem sobre a cobertura de detritos orgânicos, a mais comum delas é a Oeceoclades maculata. Esta orquídea ocorre em muitos ambientes que contém remanescentes de matas, tanto primárias quanto matas em regeneração. Nas árvores mais antigas que foram poupadas, observamos muitas colônias de Encyclia patens, Polystachya concreta e Isochilus linearis vegetando nos galhos mais expostos a luz solar, essas orquídeas são avidamente polinizadas pelos insetos.

Na parte do pico onde estão os afloramentos rochosos são encontradas muitas espécies de orquídeas. Nestes ambientes com muita luz, ventilação e baixa umidade existem espécies que se adaptaram a essas condições e somente ali podem sobreviver. Certamente uma das mais interessantes é a Zygopetalum maculatum que vive sobre as rochas nas partes onde existe uma pequena quantidade de solo e umidade. Suas flores exalam um delicioso perfume. Também nas rochas, encontramos Epidendrum secundum, Coppensia aff. blanchetii, Pseudolaelia geraensis, Cyrtopodium glutiniferum e Bletia catenulata. Todas elas são plantas que resistem ao sol pleno e pouca umidade do ambiente, além da resistência às queimadas.

As Cyrtopodium glutiniferum podem aparecer no meio dos pastos, crescendo junto ao capim e correndo o risco de serem comidas pelo gado e também de serem queimadas, mas logo depois que começam as primeiras chuvas elas rebrotam e florescem no início de setembro antecedendo a primavera. Um verdadeiro milagre! Algumas espécies parecem ser dispersas pelas próprias pessoas que trafegam pelas estradas do pico, constatamos isso devido a presença constante da Sacoila lanceolata, uma orquídeas terrestre que é encontrada nas margens das estradas e trilhas. Certamente esta espécie aproveita a quantidade de luz que é maior nas margens das estradas e trilhas para se desenvolver e ao mesmo tempo estar bem visível aos seus polinizadores, os beija-flores. Outra orquídea, Epidendrum secundum, não se incomoda com a presença do homem em seu ambiente, muitas colônias nascem em áreas muito alteradas e até mesmo com muito lixo ao seu redor.

Esperemos que com esse pequeno texto os moradores de Governador Valadares e os visitantes do Pico da Ibituruna conheçam melhor esse lindo cartão postal e lutem para preservar a natureza da nossa cidade e região.

Créditos: Texto e fotos do autor Reginaldo Vasconcelos,  estudioso de orquídeas, colaborador deste espaço dedicado ao mundo das orquídeas. Tem outros valiosos artigos aqui publicados,  incluindo descoberta de novas espécies.  Seu email de contato:  hectia@gmail.com

Um comentário »

  • Sandra Soares dito:

    Descobri mais de uma de minhas orquideas nesta sua matéria Reginaldo!! Principalmente o meu querido cyrtopodium,que me enche de orgulho quando vejo suas flores amarelas se desabrochando ao sol,é lindooooo. Na última floração pude contar quase 300 flores em seus vários cachos na haste floral.É maravilhoso acompanhar as aventuras de vocês dois,hora o José Luis,hora você trazendo estas maravilhas da nossa natureza e das plantas que amamos tanto. Se todos se importassem realmente em preservar,não aconteceria como você relata,não estariam proximas a lixo como as epidendrum, muito ajudaria se a conscientização fosse maior e não ficasse somente entre os orquidófilos de plantão. Parabéns a você e ao José Luis que sempre nos trazem estas maravilhas.Abs, Sandra Soares.

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