A espécie epífita Cattleya araguaiensis Pabst, 1967 – foge praticamente de todas as definições descritivas do gênero Cattleya. A começar pelo formato da planta. Seus pseudobulbos cilíndricos e finos (em torno de 0,5cm de diâmetro) e três entrenós, com altura média de 10 cm, de onde emerge uma única folha oblongo-lanceolada coriacea de igual tamanho com cerca de 3 cm de largura na parte central, em nada lembra o que estamos acostumados a ver em outras espécies, com pseudobulbos avantajados, roliços e ovóides como de uma C. nobilior ou cilíndricos longos e juncosos como de uma C. amethisthoglossa ou C. bicolor por exemplo. O enraizamento, ao contrário das demais, que apresentam velame carnudo e volumoso, é caracterizado por velame fino e emaranhado.
A espata floral sai da ponta do pseudobulbo, lembrando um pequeno charuto quando já está prestes a abrir a flor. Esta, é completamente diferente de suas parentes. As pétalas e sépalas de cor verde-oliva, num formato lanceolado estreito e ligeiramente curvo, sem ondulações, são totalmente pintalgadas de marrom, formando bonito contraste dessa cor lembrando o “camuflado” de roupas do Exército. Seu labelo, cor branco leitoso é ímpar; afunilado ou cônico, com os lóbulos laterais sobrepostos e cobrindo completamente a coluna, apresenta no lóbulo central, margeando a ponta, coloração marrom-arroxeada esmaecendo-se para cor coerulea em direção ao centro onde encontra coloração amarela difusa sequenciando novamente num tom coeruleo em direção a fauce. Essa coloração coerulea existe em maior ou menor intensidade e tamanho colorindo o labelo, variando numa e noutra planta mas sempre nesse padrão de cor, mas facilmente perceptível olhando a flor na parte inferior externa (veja fotos). Algumas pessoas conhecendo da planta apenas por fotos, muitas vezes sem boa definição ou forma pela qual foi fotografada, seja em razão de luminosidade, foco, uso ou não de flash, o que compromete o resultado final da imagem, acreditam que essa coloração do labelo seria apenas roxo-amarronzada, o que não é correto.
A Cattleya araguaiensis tipo apresenta a variação, tonalidade e gradação das cores acima descritas no labelo. O perfume acentuado da flor lembra em muito aquele da Cattleya violacea. Um detalhe interessante que tenho observado nas florações da Cattleya araguaiensis tipo é o fato de que nalgumas plantas as flores apresentam a sobreposição dos lóbulos laterais sobre a coluna, no sentido anti-horário (A), noutras sentido horário (B). A primeira foto acima mostra flor de planta da minha coleção e a segunda da orquidófila Elza Vieira, de Morrinhos/Go - Brasil, onde a minha tem sobreposição no sentido A e a dela no sentido B. Existe também a Cattleya araguaiensis forma alba, descrita por L.C. Menezes in Schlechteriana 2:75 (1991) que nem eu ou a amiga orquidófila Maria Iraene de Luciara/MT, em nossas andanças pelo habitat da Ilha do Bananal - no Estado do Tocantins, pudemos encontrar. Quem sabe um dia seremos presenteados pelo encontro de uma Cattleya araguaiensis forma alba! Conheça seu santuário na Ilha do Bananal, Estado do Tocantins, Brasil, clicando AQUI.
Estudos recentes dos pesquisadores Dr. Cássio van den Berg, da Universidade Estadual de Feira de Santana, Estado da Bahia, Brasil e Dr. Mark W. Chase do Jodrell Laboratory, Royal Botanic Gardenn em Kew, na Inglaterra propõem um novo gênero botânico para a Cattleya araguaiensis, como Cattleyella (Pabst) Van den Berg & M.W. Chase, publicado no Boletim C.A.O.B. 52:100 (2003) – e do qual ela seria o único individuo, como Cattleyella araguaiensis (Pabst) Van den Berg & M.W. Chase, 2003, assim como sua forma alba. Veja o inteiro teor do texto:
“Um novo gênero de Laeliinae do Brasil: Cattleyella Van den Berg & M. W. Chase
Dr. Cássio van den Berg*
Dr. Mark W. Chase**
Abstract
A new genus (Cattleyella) is proposed by Drs. Cássio van den Berg & Mark W. Chase for the Brazilian species Cattleya araguaiensis Pabst. (MAC)
A subtribo Laeliinae foi proposta por Bentham (1881), remodelada por Pfitzer (1889), e continha, no sistema de Dressler (1993), 45 gêneros. Embora outro sistema proposto (Szlachetko, 1995) tenha dividido a subtribo em três subtribos (Laeliinae, Epidendrinae e Ponerinae), estudos moleculares recentes (van den Berg et al., 2000; van den Berg et al., 2002) confirmararam a inclusão da maioria dos gêneros do sistema de Dressler (1993).
Foram excluídos apenas Dilomilis e Helleriella para Pleurothallidinae e Ponera e Isochilus para Ponerinae (que tem, com base em DNA, uma composição bastante distinta da proposta por Szlachetko). Além disso, dados moleculares mostram que Arpophyllum e Meiracyllium (membros de outras subtribos no sistema de Dressler) também são parte de Laeliinae.
Dentro da subtribo a variação de DNA é pequena, o que dificulta agrupamentos detalhados, mas são aparentes alguns grupos principais de gêneros. Estudos recentes ainda não publicados com três regiões de DNA distintas (ITS, trnL-F e matK) sugerem a seguinte estrutura de gêneros dentro da subtribo:
a) Grupo de Pseudolaelia: este inclui principalmente gêneros brasileiros, geralmente com uma coluna curta e larga, pequenos lobos laterais e nectários na base do labelo: Isabelia (incluindo Neolauchea e Sophronitella), Pseudolaelia, Constantia, Leptotes e Loefgrenianthus. Embora não tenha sido sequenciado, provavelmente aqui entraria também o gênero Pygmaeorchis.
b) Grupo de Encyclia: Encyclia, Artorima, Alamania, Prosthechea, Euchile, Oestlundia.
c) Grupo de Broughtonia: esta é uma pequena coleção de gêneros geralmente caribenhos: Broughtonia (inclui Cattleyopsis e Laeliopsis), Psychilis, Tetramicra, Quisqueya e provavelmente Dinema e Nidema.
d) Grupo de Scaphyglottis: estes gêneros normalmente apresentam um pé-de-coluna (mas nem todos): Scaphyglottis (inclui Hexisea, Tetragamestus, Reichenbachanthus), Dimerandra, Jacquiniella e Acrorchis.
e) Grupo de Domingoa: Domingoa (inclui Nageliella), Pinelianthe (inclui Homalopetalum).
f) Grupo de Laelia: apenas o gênero Laelia (inclui apenas as espécies mexicanas e também Schomburgkia).
g) Grupo de Epidendrum: Epidendrum, Oerstedella, Barkeria, Orleanesia e Caularthron.
h) Grupo de Cattleya: Cattleya, Brassavola, Sophronitis, Rhyncholaelia, Guarianthe e provavelmente Meiracyllium (e finalmente o novo gênero que é descrito neste artigo).
As primeiras linhagens evolutivas no grupo de Cattleya foram Meiracyllium, Rhyncholaelia e Guarianthe, o que sugere uma distribuição original no México e América Central, e depois se espalhando para a América do Sul. Estudos moleculares das espécies brasileiras anteriormente colocadas em Laelia mostram que estas formam um grupo juntamente com Sophronitis, e podem aí ser colocadas (outros autores preferiram dividí-las em diversos gêneros pequenos).
Estudos no gênero Cattleya demonstram que existem 100 outros grupos anteriormente incluídos em Cattleya que se posicionaram em posição separada deste gênero. Um destes grupos tem apenas quatro espécies e foi separado como Guarianthe (o grupo de C. skinneri, Dressler & Higgins, 2003), que apresenta morfologia floral levemente distinta, e distribuição geográfica na América Central, enquanto o restante do gênero é essencialmente
sulamericano. Outras duas espécies que não se encaixam bem são C. araguaiensis e C. maxima.
Enquanto a última tem morfologia similar ao grupo de C. labiata e ainda se encontra em estudo, C. araguaiensis apresenta uma morfologia única.
Ao descrever esta espécie, Pabst (1967) optou por colocá-la em Cattleya devido à existência de quatro polínias. Entretanto detalhes da coluna, especialmente duas aurículas unciformes apontadas para cima, e também o formato da antera, não são encontrados em nenhum gênero do grupo de Cattleya. Seus caracteres vegetativos, por outro lado, sugerem neotenia (quando o indivíduo atinge a fase reprodutiva apesar de haver um retardamento no desenvolvimento da parte vegetativa) pois os pequenos indivíduos desta espécie poderiam ser facilmente confundidos com indivíduos jovens de Cattleya, Guarianthe ou Sophronitis s.l..
Assim sendo, decidimos por separar esta espécie em um gênero novo devido ao seu isolamento morfológico e evolutivo.
O labelo de C. araguaiensis não é tão trilobado como as espécies de Cattleya do grupo bifoliado e apresenta uma margem lisa sem ondulações, lembrando mais o labelo de Guarianthe do que das espécies de Cattleya unifoliadas. Pabst (1967) descreveu C. araguaiensis do município de Pium, norte da Ilha do Bananal, hoje no estado do Tocantins, mas esta espécie também tem sido coletada em uma área razoavelmente grande no sul do Pará.
Plantae epiphyticae pseudobulbis cylindricis internodiis tribus amplitudine dissimilibus, folium unum anguste ellipticum, inflorescentia uniflora vel raro biflora cum spatha. Sepala petalaque similia ex bruneo viridiflava. Labellum fere indivisum lobis lateralibus columnam involventis et lobis terminalibus ad marginem integris. Columna cum auriculis duobus unciformibus, anthera galeata. Pollinia 4 caudiculata.
Typus: Cattleyella araguaiensis (Pabst) Van den Berg & M. W. Chase (Cattleya araguaiensis Pabst)
Descrição:
Plantas epífitas, pseudobulbos aproximadamente cilíndricos, geralmente com três entrenós de tamanhos diferentes, uma folha estreitamente elíptica. Inflorescência uniflora ou raramente biflora, dotada de espata. Sépalas e pétalas similares, verde-amareladas matizados de marrom. Labelo pouco dividido com lobos laterais envolvendo a coluna e lobo terminal de borda lisa. Coluna com duas aurículas unciformes. Antera galeiforme. Polínias 4, com caudículos.
Cattleyella araguaiensis (Pabst) Van den Berg & M. W. Chase, comb. nov.
Basiônimo: Cattleya araguaiensis Pabst in Orquídea 29: 9 (1967).
Cattleyella araguaiensis f. alba (L. C. Menezes) Van den Berg & M. W. Chase, comb. nov.
Basiônimo: Cattleya araguaiensis var. alba L. C. Menezes in Schlechteriana 2: 75 (1991).
A combinação infraspecífica foi originalmente descrita com o status de variedade, mas corretamente realocada para forma por Christenson (1996), e assim mantida em Cattleyella.
Literatura Citada
BENTHAM, G. 1881. Notes on orchideae. The Journal of the Linnean Society 18: 281-360.
CHRISTENSON, E. A. 1996. Notes on Neotropical Orchidaceae II. Lindleyana 11: 12-26.
DRESSLER, R. L. 1993. Phylogeny and classification of the orchid family. Dioscorides Press, Portland.
DRESSLER, R. L. e HIGGINS, W. E. 2003. Guarianthe, a generic name for the “Cattleya” skinneri
complex. Lankesteriana 7: 44-46.
PABST, G. F. J. 1967. Additamenta ad orchidologiam brasiliensem – VIII. Orquídea 29: 5-22.
PFITZER, E. 1889. Orchidaceae. Páginas 52-222 in ENGLER, A. e PRANTL, K. (eds.) Die Natürlichen Pflanzenfamilien Ergänzungsheft.
SZLACHETKO, D. L. 1995. Systema Orchidalium. Fragmenta Floristica et Geobotanica Suppl. 3: 1-152.
VAN DEN BERG, C.; HIGGINS, W. E.; DRESSLER, R. L.; WHITTEN, W. M.; SOTO ARENAS, M. A.; CULHAM, A.; CHASE, M. W. 2000. A phylogenetic analysis of Laeliinae (Orchidaceae) based on sequence data from internal transcribed spacers (ITS) of nuclear ribosomal DNA. Lindleyana 15: 96-114.
VAN DEN BERG, C.; HIGGINS, W. E.; DRESSLER, R. L., WHITTEN, M. W., CULHAM, A., CHASE, M. W. 2002. Molecular systematics of the Laeliinae. Páginas 170-176 in CLARK, J.; ELLIOTT, W. M.; TINGLEY, G.; BIRO, J. Proceedings of the 16th World Orchid Conference (Vancouver). Vancouver Orchid Society, Vancouver.
* Dr. Cássio van den Berg
Professor Titular, Depto. de Ciências Biológicas,
Universidade Estadual de Feira de Santana
BR116 km3, 44031-460 - Feira de Santana, BA, Brasil
e-mail: vcassio@gmx.de
** Dr. Mark W. Chase
Jodrell Laboratory, Royal Botanic Gardens,
Kew, Richmond, Surrey TW9 3DS, England”










